Eu ando pela rua,observo as pessoas que passam apressadas perto de mim. Sim, perto de mim, mas não me enxergam. Bem, a grande maioria delas não me enxerga... É quase como se eu não existisse. É quase como se eu não existisse para elas. Apressadas, sempre apressadas. Os carros... As pessoas... Quem iria reparar em mim? Ainda mais em dia de chuva! As pessoas passam, guarda chuvas abertos, apressadas, indo correndo para algum lugar. Elas não querem saber quem eu sou, o que eu penso, por que caminho devagar pela rua molhada. Pela rua, não; pela calçada. Os carros passam, rostos cansados dirigem apressados, mesmo quando andam devagar, por causa do trânsito lento, estão apressados e nós, do lado de fora, apenas temos de desviar dos respingos das águas das poças que os carros espalham ao passar. No rosto de todos que passam, uma expressão do mesmo, como se todos fossem para o mesmo lugar. Ou para lugar nenhum.
Caem umas gotas preguiçosas do céu e eu imagino-me naqueles filmes em que tudo acontece em câmera lenta,muito devagar. É assim: eu levanto os olhos para o céu e vejo a chuva caindo, o meu guarda chuva protege-me um pouco e o desenho cinza das nuvens no céu facilita a sensação de estar tudo parado, tudo parado menos a chuva que cai, em câmera lenta. Eu, muito longe de todas as pessoas, na verdade, eu muito longe de tudo, apenas, talvez, isso quando olho o céu e a chuva caindo, eu, talvez, apenas dentro de mim...
Claro, de repente sou obrigado a olhar para o chão. Ou olhar em frente. Olhar em frente obriga-me a ver as pessoas apressadas, com expressão do mesmo olhar, caminhando não interessa a ninguém para onde a não ser para elas mesmas. Talvez nem pra elas lhes interesse. Umas delas passa e cospe no chão. Que coisa mais desagradável!
Mas eu ando devagar, não vou deixar que a pressa dos outros contamine o meu passeio. Eu preciso filtrar tudo ao meu redor, alimentar-me do que vejo, respirar tudo, deixar o tempo pulsar em mim. As paredes, com a umidade da chuva, parecem ter as cores reforçadas. Como se fossem cores mais vivas, até o ar parece ficar mais vivo. Então, as cores vivas das paredes das casas, do chão molhado, das plantas, sei La... Até dor guardas chuvas das pessoas apressadas, dos carros na rua respingando água suja nos outros, de tudo, enfim, contrasta com o céu cinza e feio. Nesse momento eu gosto de andar pela rua. Eu ando pelo mundo, devagar, naquele instante. Há música dentro de mim...
Poderiam ocorrer milhares de coisas no trajeto de uma quadra: uma senhora poderia ser atropelada por uma manada de elefantes alienígenas, verdes com bolinhas roxas, deixados por aqui há alguns anos como parte de uma experiência interplanetária promovida por uma associação interestelar de pesquisa biológica,algo assim. De repente, um casal poderia começar a brigar, a moça gritando bem alto “ Mas por que você quer fazer uma operação de mudança de sexo hoje? Logo hoje que eu fiz bolinhos de chuva? ” . As pessoas passariam pelo casal sem entender absolutamente nada e fariam cara de espanto e o rapaz olharia para essas pessoas e diria algo como “ Ta olhando o que? Chispa! ”. Um senhor, muito idoso e com jeito de importante - um advogado ou um medicou ou ..., sei La -, poderia , de repente, sair correndo e tirando a roupa. Então, já nu, pelo meio da rua, desviando-se dos carros, todo molhado pela chuva, só de meias... Tá, meias e cuecas..., começariam a gritar: “ Eu sou gente ! Eu me chamo Walmir ”...
Sim, fico pensando nas coisas que não acontecem, mas poderiam acontecer, enquanto ando, propositalmente devagar, só para contrariar a pressa do mundo e rio, rio pra mim mesmo. Acho graça nas bobagens que invento. Gostosa a risada que se desprende de minha alma ao pensar nessas possibilidades sem grande sentido. Acho que as pessoas seriam capazes de me considerar um tanto maluco se olhassem para mim e me vissem. Para isso, claro, elas teriam de saber me ver. Então penso que se elas conseguissem me ver, talvez nem sequer me achassem tão maluco porque penso coisas diferentes daquilo que os outros se acostumaram a pensar. Penso coisas ternas também. Coisas cheias de ternuras azuis que poderiam acontecer no intervalo da caminhada entre dois postes de luz.
Uma mãe poderia sair para passear com seu filho. O menino olharia para o céu e diria: “ Mamãe, está chovendo! “ e a mãe responderia: “ Sim, é para molhar as plantinhas “ e o filho sorriria e pularia numa poça de água e a mãe olharia meio-brava, mas só de mentirinha, e diria, com um sorriso no rosto: “ para com isso, olha que você pode se molhar! ” . E o menino daria uma gostosa risada. Uma risada para fora, solta e feliz. Um casal poderia passar agora mesmo ao meu lado. Um rapaz e uma moça, felizes, caminhando juntinhos. O rapaz abraçado á moça, dizendo-lhe ao ouvindo: “ Viu? Claro que eu te amo! “. Duas garotas, passariam logo em seguida, muito apressadas, uniforme de escola, dividindo um pequeno guarda chuvas, uma delas falando alto para a outra: “ Adorei o livro, Miriam! Você tem que ler! Vou emprestar, sim, claro! ” . Mas já não deu nem tempo de ouvir a resposta da Miriam, porque elas passaram muito apressadas e eu, eu ando devagar... Bem devagar.
O semáforo mostra, orgulhoso, a sua luz vermelha. Os carros apressados. As pessoas continuam com a sua expressão de mesma coisa. Aí eu penso que em algum lugar do mundo acaba de nascer uma criança. Talvez essa criança venha se tornar muito sábia e venha a escrever um livro que eu nem sei o nome. Um menino escritor como Machado de Assis ou Shakespeare. Escreveria um livro que ensinasse as pessoas a se olharem e a sorrirem nos dias de chuva. Então o semáforo ficou verde e eu atravessei a rua e segui em frente.
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